Por Daniel Nassif – empresário, agente de jogadores há 19 anos, pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo
As novas regras da CBF divulgadas na semana passada geraram grandes e calorosos debates no Brasil. As principais foram: a CBF aprovou a redução gradativa do limite de estrangeiros no Brasileirão — de 9 atuais para 5 até 2030 — e a criação de uma cota de sub-23 na lista de 50 inscritos do Brasileirão (20 em 2027, chegando a 25 em 2030). Foram comemoradas como vitórias da base. Há um sintoma real: os jovens vêm perdendo espaço nas principais competições nacionais. Porém, os dados da própria CBF contam outra história: estes limites nunca foram o gargalo.

Na semana passada, clubes das Séries A e B aprovaram o pacote: redução gradual de estrangeiros por partida (8 em 2027, 7 em 2028, 6 em 2029, 5 em 2030) e cota de inscrição de sub-23 na lista de 50 atletas (30/20 em 2027, até 25/25 em 2030). Foram aprovadas também a nova grade de horários de jogos e o modelo da Copa do Brasil, com a própria CBF cuidando da produção de todos os jogos — o que é um avanço para a comercialização internacional dos direitos de transmissão, por exemplo. Antes de qualquer crítica, é justo reconhecer que a CBF vem sendo proativa no sentido de modernizar e melhorar o futebol brasileiro, e há méritos reais no pacote. A entidade fez um estudo sério, ouviu clubes e federações e trouxe dados comparativos com as grandes ligas da Europa.
O limite de estrangeiros nunca foi o problema do futebol brasileiro. E os números da própria CBF provam isso. Ainda que seja válido testar novas regras, atacar esse sintoma não resolverá a doença.
O estudo da CBF Academy mostra que os clubes relacionam, em média, 5,4 estrangeiros por partida — 40% abaixo do teto de 9. Em 94% dos jogos, as vagas nem eram preenchidas. Reduzir o teto, então, não muda nada na prática: o limite nunca foi a trava que impedia os jovens de jogar. A medida é simbólica — agrada a opinião pública sem criar um minuto a mais para a base.
Não sou muito simpático a cotas, eu acredito que o mercado se autorregula, porém acho válido testar a cota de atletas sub-23, pois ela imediatamente cria demanda por atletas jovens, e, pelo menos, sinaliza numa boa direção, mesmo que apenas a inscrever e não a escalar. Um clube pode ter 25 jovens na lista e não dar um minuto a nenhum deles. O que desenvolve atleta é jogo — competição real, pressão, minutagem. Vaga na lista não forma ninguém.
Vários países já testaram esse tipo de regra e não há correlação comprovada: a Inglaterra tem a liga mais forte do planeta com jogadores ingleses sendo minoria nos elencos e a sua seleção semifinalista na última Copa do Mundo. O Real Madrid já entrou em campo diversas vezes sem nenhum espanhol titular, e a seleção espanhola é a atual campeã mundial. A Itália, com regras rígidas de limites, ficou fora das últimas três Copas.
O Brasil segue sendo o maior exportador de jogadores do mundo, por sermos uma grife, e pelas dimensões continentais que temos. Explorarei isso em outros artigos.
A contradição mais reveladora veio na mesma reunião: a CBF reduziu estrangeiros, implementou a cota de sub-23, porém manteve a regra que impede um jogador com 12 ou mais partidas de se transferir para outro clube da mesma divisão. Resultado: com o mercado interno travado, o clube que precisa repor vai buscar fora do país. Abel Ferreira, treinador do Palmeiras, resumiu isso numa frase em uma entrevista recente: “Reservas? Então temos que buscar fora. Vocês acham justo? Gostaria de ter brasileiros, não posso.”
Se o objetivo é dar espaço ao brasileiro, travar o mercado interno e empurrar os clubes para o exterior caminha na direção contrária. Esta regra fazia algum sentido quando o período de transferências domésticas ficava aberto até o segundo turno do Brasileirão. Ela perdeu todo o sentido com a medida acertada de implementar as janelas de transferências internas este ano.
Onde está o problema, então? Na formação. Ora, isso é o que já se fala — Jorge Jesus, ex-treinador do Flamengo e hoje técnico da seleção portuguesa, disse recentemente, em coletiva antes de Portugal x Noruega: “o problema é a formação”. E lembrou que em Portugal o treinador pode escalar 11 estrangeiros, se quiser — ainda assim, Portugal é um dos países que melhor formam jogadores no mundo.
Formação se mede em minutos de jogo em competição real. Hoje, 10 estados não têm nenhum clube nas Séries A, B ou C. Cerca de 850 clubes profissionais jogam apenas 3–4 meses por ano. Enquanto as ligas europeias dão aos sub-23 entre 28% e 38% dos minutos, nós damos apenas 13,8%. A conta é simples: para dar mais minutos aos jovens brasileiros, o Brasil precisa de mais clubes jogando — não de menos estrangeiros nos 40 clubes de elite. Times B competindo em divisões inferiores, estaduais com calendário anual, mais competições no segundo semestre. Cada clube a mais em atividade é uma fábrica de minutos a mais.
Enquanto discutimos quantos estrangeiros entram em campo, nas séries A e B, em um universo de apenas 40 clubes, o Brasil continua desperdiçando a maior estrutura de futebol do mundo. Somos 27 federações estaduais e mais uma nacional — um país-continente. É mais que o dobro de federações da Conmebol (10) e cerca de metade da UEFA (55). É o único país no mundo com essa configuração. Um potencial gigantesco, não explorado: um gigante adormecido. Vou desenvolver melhor esse assunto nos próximos artigos.
A CBF acertou em dar uma resposta à opinião pública — e isso tem valor. O próximo passo, o mais difícil e o mais transformador, é estrutural: trazer as 27 federações para o jogo, expandir o calendário e transformar minutos em formação. Ao olhar apenas para as competições nacionais, deixamos de lado uma imensidão inexplorada, apequenamos o nosso futebol, em vez de fazê-lo crescer. Cota redistribui escassez. Expansão cria abundância.
A redução de estrangeiros vai mudar alguma coisa na base? a cota de sub-23 vai gerar minutos de verdade? Ou o problema da formação exige outras soluções?





