Vida e morte: a dialética do existir

Por Thiago Chaves – professor Doutor em Administração pela UDESC/SC

Vida e morte são dois antônimos que, paradoxalmente, coexistem. Não há vida sem a presença silenciosa da morte, assim como a morte só pode ser compreendida a partir daquilo que um dia foi vida.

Popularmente, costumamos dizer que “a única certeza que temos é a morte”. A vida finda com a morte, e a morte encerra a experiência da vida. Esse é o processo ao qual estamos submetidos desde o instante em que nascemos. Retratado tão bem pelo verso “A gente mal nasce / Começa a morrer” da música “Sei Lá…A Vida Tem Sempre Razão”, composta por Toquinho e Vinícius de Moraes.

Na sabedoria atribuída a Heráclito, “vivemos de morte e morremos de vida”. A frase revela uma percepção profunda da existência: a morte não é apenas um acontecimento futuro, mas um processo contínuo, gradual e silencioso. Todos os dias, vivemos de morte. Biologicamente, nosso organismo se regenera: células morrem, novas células nascem, tecidos se renovam. O mesmo ocorre com as sociedades, que se transformam e se regeneram ao educar novas gerações, enquanto outras se despedem.

Essa alternância nos conduz à permanente renovação da ordem e da desordem da vida; de suas certezas e incertezas; de seus amores e conflitos; das partes e do todo que, incessantemente, se reorganizam. Existir é, portanto, uma sucessão de perdas, transformações e recomeços. Aos poucos, morremos, ou, talvez mais precisamente, aos poucos, deixamos de ser aquilo que fomos.

Edgar Morin, filósofo francês que morreu aos 104 anos em 2026, ao refletir sobre a complexidade humana, sentenciou: “a morte humana é um conhecimento do indivíduo”. Mas, afinal, por que fugimos tanto de um conhecimento que nos é tão intrínseco? Talvez porque reconhecer a morte seja também reconhecer os limites da nossa própria existência.

As religiões, diante dessa finitude, oferecem diferentes formas de esperança e transcendência. A morte pode ser compreendida não como um fim absoluto, mas como uma passagem, uma transformação ou uma continuidade. Para os cristãos, pode representar o início da vida eterna; para os espíritas, a desencarnação; para os hindus, um caminho de libertação do ciclo do carma. Diferentes crenças, diferentes respostas, mas uma mesma inquietação humana diante do desconhecido.

A morte, enquanto acontecimento, não depende de nossas preferências. Podemos, contudo, influenciar as condições em que percorremos o caminho até ela, por meio do cuidado com a saúde, dos hábitos, da alimentação, das relações e da busca equilibrada pela felicidade. Temos algum domínio sobre o modo como vivemos, mas nenhum controle absoluto sobre quando deixaremos de viver.

A morte gradual tampouco pede licença. Ela acontece enquanto vivemos. Chega em pequenas despedidas: naquilo que envelhece, nas relações que mudam, nos sonhos que abandonamos, nas versões de nós mesmos que ficam pelo caminho. Até que, um dia, resta apenas o último sopro. E o que nos resta diante dessa realidade?

Talvez a fé. Talvez a filosofia. Talvez puramente a consciência de que o tempo é limitado e, justamente por isso, cada instante possui seu valor. Regar a existência com amor, simplicidade e comunhão com aqueles que nos fazem bem possivelmente seja uma das formas mais dignas de enfrentar a inevitabilidade da morte. E quiçá justamente nessa aparente contradição é que resida a grandeza da existência: vivemos para morrer, mas é a consciência da morte que nos ensina a viver.

Entre o viver e o morrer, entre o morrer e o viver, seguimos navegando nessa bússola incerta da existência. E, enquanto houver tempo, cabe a nós regenerar aquilo que há de mais essencial em cada um de nós: o nosso educandário de humanidade. Porque, no fim, a dialética do existir seja exatamente aprender a morrer sem deixar de aprender a viver.

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