Por Márcio Orofino, engenheiro civil, sócio e diretor executivo da ENE Consultores e Canteiro AEC
Morei mais de dez anos em São Paulo, capital. E não apenas morei: vivi a cidade. Abri empresa, construí relações, trabalhei muito e aproveitei o litoral para surfar, especialmente no Guarujá. Por isso, uma notícia sobre a qualidade da água nas praias paulistas não é, para mim, uma informação distante.

A reportagem do Metrópoles sobre 90 praias impróprias para banho no litoral de São Paulo traz uma lista que merece mais do que uma olhada rápida. É preciso rolar a página para conseguir ler o nome de todas as 90 praias.
O número provoca espanto. Mas o que está sendo medido deveria provocar ainda mais. A classificação de balneabilidade considera a concentração de bactérias indicadoras de contaminação fecal em amostras coletadas ao longo de cinco semanas. As bactérias funcionam como sinal de risco; a análise, sozinha, não identifica a origem exata da contaminação em cada praia.
Em linguagem direta: estamos medindo sinais de contaminação por fezes na água em que as pessoas entram para nadar e surfar.
Ao longo dos anos, observei o desenvolvimento do Guarujá e a pressão que a ocupação urbana exerce sobre sua infraestrutura. Muitos paulistas passaram a procurar outros destinos, entre eles as praias de Santa Catarina. Só que trocar de litoral não resolve um problema que pode viajar com o nosso modelo de crescimento, que passou a ser replicado por Santa Catarina.
No litoral centro-norte catarinense, de Florianópolis a Joinville e São Francisco do Sul, vemos a formação de um grande corredor urbano. Chamado de Floriville, um conglomerado que unifica o desenvolvimento desde a capital até a ponta norte do estado de SC. Novos edifícios, moradores e turistas movimentam a economia. Também aumentam, a cada temporada, a demanda por uma malha viária adequada, transporte, coleta e tratamento de esgoto, drenagem, abastecimento e fiscalização das ligações clandestinas.
O risco é repetir uma sequência conhecida: aprovar a ocupação, celebrar a valorização imobiliária e deixar para depois a infraestrutura necessária para sustentá-la
A conta aparece nos rios, nos canais e nas praias. Em Santa Catarina, os boletins do IMA permitem acompanhar as condições de banho ponto a ponto; elas variam conforme o local e a data, mas deixam claro que qualidade da água precisa ser tratada como assunto permanente de gestão urbana.
É aqui que Miami, nos Estados Unidos, local onde muitos desenvolvedores tem buscado referências para o mercado nacional, oferece uma comparação útil, sem idealização. Miami também registra alertas de balneabilidade. Em setembro de 2026, a autoridade de saúde de Miami-Dade publicou avisos após detectar níveis elevados de enterococos em praias monitoradas. A Flórida também enfrenta o desafio das fossas sépticas: o condado estima cerca de 110 mil propriedades atendidas por esses sistemas.
A diferença que merece nossa atenção está na forma de enfrentar o problema. Miami-Dade mantém uma rede de coleta, estações de bombeamento e tratamento; monitora a qualidade da água; investe na substituição de fossas por ligações à rede; e executa um programa de obras para reduzir a disposição de efluentes tratados no oceano. São sistemas caros, complexos e ainda sujeitos a falhas. Mas têm responsáveis, investimentos e metas públicas.
Nenhuma cidade costeira assegura água própria para banho o tempo todo. Chuvas intensas, falhas operacionais e fontes difusas de poluição exigem monitoramento constante. Por isso, o objetivo não pode ser apenas retirar uma praia da lista de impróprias na semana seguinte. É impedir que a contaminação se torne parte normal da paisagem.
Para nossas cidades, isso significa vincular o crescimento imobiliário à capacidade real de coletar e tratar esgoto. Significa verificar ligações prediais, separar corretamente esgoto e águas pluviais, manter redes e elevatórias e divulgar resultados de qualidade da água de forma compreensível. Um novo empreendimento precisa considerar a infraestrutura da cidade que o recebe, inclusive na alta temporada. E as prefeituras têm que ter uma conversa conjunta com os desenvolvedores. E em um país rachado, o diálogo virou artigo de luxo.
A pergunta para Floriville, para o Guarujá e para qualquer cidade litorânea brasileira é simples: quantos moradores e visitantes podemos receber mantendo rios, canais e praias saudáveis?
Se não soubermos responder, estamos planejando apenas os edifícios. A cidade, e o mar, e os ecossistemas, ficarão com o restante da conta.
Águas saudáveis, pessoas saudáveis. Isso é o básico do desenvolvimento.





