Entrevista Valdir Dutra

A entrevista de Domingo traz um personagem importante na história de Santa Catarina. Morador da Rua João Carvalho, no Bairro Agronômica, em Florianópolis, ele há 50 anos é o responsável pela alegria das crianças através da produção de peças infantis. Estamos falando do produtor cultural Valdir Dutra. 

Nascido em Florianópolis no dia 30 de janeiro de 1940, Valdir Dutra foi criado no Balneário de Ingleses, no Norte da Ilha. Casado com Neusa Dutra, é pai de dois filhos: Adriano e Angelita.

Começou sua trajetória no teatro infantil na década de 1960. Trabalhou nos cinemas do centro da cidade (Ritz e São José) como porteiro, bilheteiro, e lanterninha. Na década de 70, conseguiu outro oportunidade no Teatro Álvaro de Carvalho como porteiro e ajudante de montagem de cenário das companhias de teatro do eixo Rio-São Paulo que vinham se apresentar em Florianópolis. Foi aí que tudo começou.


1- Como começou a fazer teatro infantil?

Comecei a gostar de teatro na década de 1960, porém ainda trabalhava de porteiro no cine São José e fazia um extra no Teatro Álvaro de Carvalho. Os filmes de Bang Bang americanos que faziam sucesso na época e lotavam os cinemas eram a grande sensação. A partir daí comecei a me interessar pela arte. Tinha curiosidade em saber como as coisas eram feitas e de que forma eram montadas. Depois de vários anos trabalhando no cinema do centro da cidade, apareceu essa oportunidade de ir trabalhar no TAC onde acabei conhecendo e adquirindo experiência com os espetáculos. Em 1977, montei meu grupo de teatro infantil - Grupo Independente - realizando minhas montagens de teatro percorrendo o estado. Mudou muita coisa desde quando comecei para os dias de hoje, desde a forma de divulgar até a maneira de montar ou remontar um espetáculo de teatro. 

2- Qual sua primeira montagem infantil?

Minha primeira montagem no teatro infantil foi o espetáculo “O Ratinho Sabido”, um fracasso de bilheteria. Pensamos em desistir na época, as coisas não davam certo. Numa sessão deste mesmo espetáculo, apareceu um senhor com sua filha e me disse o seguinte: “Valdir posso lhe fazer uma sugestão? Por que o senhor não monta a chapeuzinho vermelho ou os três porquinhos, quem sabe daria mais público”. Este senhor, o Tolentino Neves, que é meu amigo até hoje, trabalhava neste época como representante da Fox Filmes no Brasil. No ano seguinte montei esses dois espetáculos que até hoje são os carros chefes da minha longa trajetória no teatro infantil.

3- Qual o espetáculo de maior sucesso e o mais pedido?

O espetáculo de maior sucesso sem dúvida é o dos Três porquinhos e o lobo mau, seguido pela Chapeuzinho Vermelho; cujas as montagens foram feitas entre 1977 e 1978. Mais de um milhão de pessoas já assistiram a essas duas montagens. Diversos atores e atrizes já passaram por estas produções. A cada montagem pelo menos um ou dois atores de cada elenco são alterados dando a oportunidade para uma renovação de elenco. Os espetáculos que também fazem sucesso: “O gato de botas”, texto da professora e escritora Maura Soares, “Quem quer casar com a Dona Baratinha”, conto popular que também atrai o público, porém as histórias dos três porquinhos e da chapeuzinho vermelho são as mais solicitadas.

4- Quais as cidades mais visitadas pela companhia nesse tempo todo?

Florianópolis é a nossa casa, onde sempre realizamos a estreia dos espetáculos e depois seguimos com nosso roteiro pelo interior do Estado. Blumenau, Joinville e Itajaí são as cidades onde mais apresentações realizamos. O sul do estado também era muito visitado por nosso grupo: Laguna, Tubarão, Criciúma e Araranguá. Mas houve uma queda de público e resolvemos por um tempo procurar outras cidades. A cada fim de temporada de teatro, no mês de outubro, começamos a elaborar o roteiro do ano seguinte. Com essa organização já começamos a ver onde iremos nos apresentar, quais as cidades a serem visitadas, onde vamos dormir, almoçar, jántar, enfim, tudo tem que ser estudado e analisado, pois não podemos nos aventurar na estrada com uma equipe com quase 12 pessoas. Porém muitos me perguntam nos meses de janeiro e fevereiro, porque não realizar apresentações de teatro quando a cidade está repleta de turistas? Nós já tentamos em anos atrás, mas infelizmente o público é muito pequeno e quem vem pra Florianópolis ainda tem a preferências pelas nossas praias.

5 - O sucesso e a persistência na produção de teatro infantil se deve a quê?

Bom, eu acho que já nasci pra realizar esse tipo de trabalho mas também tenho certeza que a minha família foi de fundamental importância pro nosso sucesso. Meu filho, Adriano, e minha esposa, Neusa, praticamente fazem toda  a parte de montagem, figurino, e iluminação, coisa muito difícil você ver nos dias atuais a família trabalhando unida. Estou completando neste ano 50 anos de trabalhos dedicados ao público infantil, apesar de muitos torcerem o nariz no que faço, simplifico dizendo o seguinte: Se o que eu faço, não estivesse dando certo já teria parado em 1970.

6- Por fim, qual o futuro do teatro infantil?

6 - O futuro do teatro passa principalmente pela persistência de cada ator, atriz ou produtor de teatro. Num país onde cultura e educação na maioria das vezes nem aparece no plano de governo dos candidatos, você vai esperar o quê? Falo isso pois tínhamos na década de 80 quase 20 grupos de teatro infantil e hoje apenas o meu grupo resistiu a tantas mudanças e à falta de apoio por parte do poder público. Não adianta termos cursos, termos a formação de atores, diretores, se não temos mercado. A formação, a base começa pelo teatro infantil, passando para o infanto-juvenil e em seguida o teatro adulto. Vai depender muito de cada artista local a continuação da formação de plateia.












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